25 de outubro de 2010

Lançamento: Desinteresse Manso


Bom dia, queridos leitores e seguidores!

Venho com muita (muita, muita, muita mesmo!) felicidade convidar a todos vocês para o lançamento do meu primeiro livro, que leva o nome desse blog!

O livro é uma coletânea de alguns textos publicados aqui, junto com novas crônicas, inéditas, escritas especialmente para o livro.

Estarei na Livraria da Vila da Alameda Lorena, 1731, no dia 07/11/2010 das 16:00 às 19:00 dando autógrafos no piso superior.

Obrigada a todos vocês que estão sempre aqui comigo compartilhando desse desinteresse interessado.

Conto com vocês!

25 de agosto de 2010

Aguardo

   Eu estou a esperar que meus frios na barriga voltem. Sem eles sinto que não estou aqui e portanto oca. Sem, é claro, ser oca de verdade, já que não se retira de dentro o que uma vez já entrou.
   A vida marca, queima, deixa. Eu por enquanto guardo começos de textos e palavras que saíram sem se combinar. Eles virão depois, e virão bonitos em papel e capa.
   Por isso aguardo. Aguardo que enlouqueça a mim mesma pra poder finalmente sair de mim.
   Eu descobri que pra sentir a vida a gente precisa amar, até sufocar o estômago de medo do mergulho no abismo que amar significa.

5 de julho de 2010

Ferida

   Hoje vi o tempo ser traiçoeiro. Na verdade senti. Senti porque tenho uma ferida aberta faz algum tempo, e é uma ferida daquelas que não se curam. Esse tempo não sabe bem onde deve guardá-la, e por isso leva e traz quando achar que bem deve, e insiste sempre em colocá-la de volta no meu peito que já é inquieto por si só.
   Sonhei com inúmeras possibilidades pra reparar o que me fiz. Mas ela não vai, não passa, não fecha. E por isso finjo não senti-la. Pelo menos não quando me esforço muito pra viver a vida que ainda não se foi de mim. Gosto tanto de viver! De sentir os dias.
   Queria retratar melhor a ferida, parece-me que quando se divide as coisas com o mundo a dor fica mais leve. Mas não sei se posso. Trata-se de uma amargura não resolvida, algo que não posso lidar. Algo que preciso tirar do peito e do passado, sem tirar de mim. Transformar o ruim no bom, ou só esmagar esse ruim com o que sobrou do bom.
   Vamos à ferida. É minha e toda minha, penso que não se vai porque é secreta, e é secreta porque a fiz assim pra não morrer de vergonha de mim. Entenda que não posso pedir desculpas por ela!! Já estava aqui quando me dei conta do que era capaz, e deixei arder pra ver o quanto doía. Eu não conhecia, não sabia... mergulhei, quis ver mais. Pois veja, é como se eu gostasse dessa dor. Não, não da dor que machuca, mas da dor que se foi e deixou metade ainda viva.
   Por isso não posso pedir desculpas, afinal, a deixei viver aqui, é como um braço dentro do estômago. Um braço bem mais comprido que meus próprios braços, e que hora repousa satisfeito, hora explode meu coração entre os dedos.
   Só posso ofegar... ofeg... ofe...

10 de maio de 2010

Respiração branca

   Caso ele tivesse me ouvido. Foi pra isso que sentei no chão de neve. Estava muito escuro naquele beco, a não ser pelo poste de luz que parecia iluminar apenas a mim e ao meu casaco rosa queimado. Eu tremia de frio e me chacoalhava devagar tentando, de alguma forma, esquentar um pouco o meu corpo. Minhas bochechas rosadas começavam a se destacar mais na pele branca, era a falta de calor me queimando ironicamente. Meu lábios ardiam em vermelho de tanto que tirava peles ressecadas com os dentes. Puro nervoso.
   Eu queria virar pra trás e conversar com ele, olhando diretamente nos olhos, mas não me parecia justo uma vez que eu mesma nunca tinha visto seu rosto. Eu sentia saudades, é verdade. Mas só nessas noites de frio. Ele estava ali atrás de mim e eu podia sentir. De relance, também podia ver a fumaça de sua respiração. Não dizia sequer uma palavra.
   Insisti em perguntar: é você? Pra ter como resposta apenas um suspiro de susto e mais respiração branca perto de mim. Eu não queria mais insistir, eu não sabia mais enxergar. Era como se eu pudesse senti-lo em todos os outros lugares durante o dia sem sentir dor novamente. Mas eu sabia que na verdade, eu temia saber a verdade.
   Ele continuava atrás de mim, mudo, quase invisível se não fosse pelo "quase". E a outra também. Espionava-nos do telhado para saber se estávamos bem, sem sequer querer nosso bem.
   Levantei e continuei a caminhar no escuro molhando minhas botas pela neve. E ele também. É, ele também.

15 de abril de 2010

Sorriso enfim

   Acordei hoje de manhã com o maior sorriso que cabia em mim. Ele era tão grande, mas tão grande que até o meu coração parecia ter dilatado! Digo dilatado porque até agora ele está batendo tão vivo que eu mesma pareço não caber em mim. Chico me disse ontem pra reinventar o amor e o meu peito está em tamanha satisfação que não acho verbos e substantivos pra descrever!
   É claro que os que espiam minha fechadura sabem que não sou boa com as palavras felizes. Mas hoje a felicidade é tanta que estou nessa necessidade imensurável de dividir. Queria poder gargalhar pela janela e distribuir toda essa alegria pro mundo, como se uma onda de carinho dominasse tudo. Queria ver e sentir esse mundo sorrir comigo.
   Eu sou feliz por todos os mínimos detalhes que fazem de mim essa calmaria conflitante, e sou mais feliz ainda quando percebo que eu tenho os melhores amigos do mundo! Aqui, fora daqui, ontem, antes de ontem, hoje e amanhã! E que posso dizer com a boca cheia: eles são muitos!
   Eu tenho tanto amor em mim! Obrigada a todos esse nomes e rostos que acabaram de saltar aqui dentro. São vocês que renovam todos os dias minha paixão por estar viva e prestando atenção.

19 de março de 2010

Band-aid

   Pela segunda vez no ano, lá estava eu a observar um cenário sujo. E de novo eu era transparente e caminhava atrás do que via. Só que dessa vez, eu de fato estava lá, era eu, e me observava, e o observava também. Comunicavamo-nos apenas por olhares e silêncios.
   No parque de supostas diversões, o céu cor de rosa escorria em lilás; era quase noite. Não sabiamos onde caminhar já que quase não se via o chão por causa dos destroços de não se sabe o quê. As únicas luzes acesas eram as da roda gigante que piscavam ora vermelhas, ora amarelas. Era incrível que ainda houvessem pessoas ao redor dispostas a entrar em brinquedos enferrujados. E se eu não tivesse certeza de que não existia música nesse mundo, podia jurar que de trilha sonora tínhamos Iann Tiersenn.
   Paramos por uma voz que não reconheci, ele sim. Seguiu em disparada atrás do que ouviu. Eu, que nunca o havia visto correr, parei por alguns instantes antes de perceber que deveria segui-lo, e obviamente, me distraí com as cores, humores, e com a movimentação ao meu redor. Me dei conta de que estava perdida.
   Com os olhos rápidos de quem procura em desespero, percebi que eu me encontrava no meio de carrinhos rápidos e coloridos, que subiam e desciam, e que o mundo dentro desses carrinhos gritava uma felicidade ensandecida que não servia pra mim. Ele caiu lá de cima e bem na minha frente, com a blusa rasgada e sangue nas costas. Continuamos mudos. Mas ele gostava de band-aids e eu sempre os tinha na bolsa.

Mais uma noite de sono.