29 de outubro de 2009

Cócegas

   Esta luz afiada da manhã quase tarde está ardendo meus cílios pintados de preto. Não vou fechar a janela. Alguém precisa ser avisado sobre a falta de funcionamento destes cobertores acinzentados: estão vazando água e ainda por cima não me escondem do sol. Mas são tão bonitos... quase mar nervoso de ponta cabeça.
   Pois ouçam, se o céu fosse mar e o mar fosse céu, é certo que paulistanos se machucariam muito nessas agulhas habitáveis.

Sinto cócegas nos pés e perdi o jeito pra fazer poesias.

23 de outubro de 2009

De novo

   É como se uma onda de preocupações aterrorizantes cobrisse meus olhos. Ardem, como se eu não tivesse dormido, ou como se tivesse chorado por horas. Não o ocorreu. Não hoje. O dia é que está ardido por estar. Eu não. Estou bem. Muitíssimo bem. Mas só por estar bem não se deve dizer que o eixos estão certos. Eu guardo um grupo de pensamentos inteiros de preocupação.
   Uma cortina fechada, outra quase toda aberta. Quase, quase. Estão desalinhadas e pra sair da repetência hoje não me importa. Elas estão certas tortas. E tortas certas me deixam por trás de uma moldura singular, que enquadra, ou enretangula, telhados vermelhos, prédios convencionais, ou pontigudos e uma construção imensa e redonda. Toda esta paisagem está suja por um verde afogado.
   Ouçam este suspiro desconfortável de quem caiu pelo Amor de novo.
Eu amo de novo, e de novo, e de novo, e de novo...
   

29 de julho de 2009

Disposta sozinha

   29. Já faz tanto. Parei de estar viva e não sinto impulso algum de. Ouvi que coração que suspira não tem o que quer e não tenho nem mais o que querer. Não vou dizer chega, e não gosto das condições. Chorar mais não confortou e fingir não pensar no que me acorrenta é a melhor fórmula para aquisição de inquietação no peito. Amélie sem efeito. Faz muitos dias que o mundo é feio e apesar de os ter, não sinto confortos de amor.
   Não acreditem mais quando eu disser que mergulhar em viver das próprias paixões, não fugitivas, salva. Não salva nada. Cantar me chora, escrever me anestesia e artesanato não tem complemento. É pura condenação. Dormir de dia, e de tarde, e de noite. Ou não dormir afinal. Meus amigos morreram em mim. Desculpem, andei me matando por aí.
   Serão pistas os pequenos carinhos que vejo? Pois se são, as vejo com olhos de Bentinho. Nada cabe no que desenhei com perfeição imperfeita e sou inculta demais pra manter qualquer tipo de progresso intelectual. Além disso, meu coração anda preguiçoso e sem esperanças, mas arde nas músicas que compus e nas admirações que vi e dividi.
   Nunca quis fazer sofrer, nem estragar nada e ainda assim dancei errado todos os passos. Deixei que me vissem descoberta e acabei por me ver mais uma vez sem graça, e desmerecida do amor que eu mais quero de volta. O único que não ousei chamar de amor até enfartar de romance. De ver romance.

Ai. Nasci nas últimas décadas do século XVIII.

24 de junho de 2009

Bando de desorganizados

   Vamos lá. Mais um daqueles dias em que acordo ansiosa, tomo banho frio e volto a dormir. Uma hora depois. Outro frio na barriga, outro choque térmico e volto a dormir. Mais uma tentativa, mais um banho frio e não vou dormir de novo. Que falta de senso! Espio os que ainda me tem carinho: "você sumiu, cadê você, o que anda fazendo, aparece..." Pois ouçam, pra mim eu existo o tempo inteiro e viver comigo é duvidar da própria existência. Não me sumo e não me suporto.
   Afta embaixo da língua e um torcicolo safado. Estalo o pescoço a cada pausa para selecionar o que digo aqui. E isso é mera descrição auxílio de imaginação, verídica, porém, descrição. Um bom complemento de tudo isso seria pintar essa mesma cena usando meu moletom velho e laranja ou falar sobre o tic-tac preto que segura a franja do novo corte não tão adorado de cabelo. Não é meu maior incômodo.
   Uma verdade existe e me proíbi de falar sobre ela. Eu estou na medida do possível bem e não quero compartilhar uma vírgula do meu tema destruidor desta vez. Mas meu quase sossego vem de dizer e eu preciso registrar que estou a beira da explosão da raiva por conversar tanto comigo. Como cabe tanta antagonia em um corpo que viveu a mesma vida? Digo-me duas, como se cada uma tivesse um histórico próprio. Agora dor nas costas. São duas histéricas de coração ardido. É um monte de gente em mim que não sabe se acertar.

   Não estou rumando a nada. Boa quarta-feira.

14 de junho de 2009

Ardendo tintas


   Não. Pra qualquer saída que eu mesma desenhasse meu suspiro ardia berrando não. Costumava saber me safar. Sempre bastou regar minhas paixões extra-amor com lágrimas e tudo voltava ao confortável. Bastava chorar escrevendo, bastava molhar o violão, bastava brincar com tintas. Mas agora, essa falta de opinião para algo que deveria ter se formado a tempos está me condenando a ardência da carência. Não fico bem. A não ser quando.
   Dependência pura, quem sabe líquida, dessas mentiras que me conto. E tudo isso porque sempre me criei na fantasia. Escrevi meus fins e agora não consigo mais sair de um roteiro que não elegi como final. Só consigo gritar socorro. E nesse filme alguém com maior carinho do que eu tenho por mim precisa me recolher. Aproveitem-me.
   Falta crença na minha realidade, falta confiança nos meus reflexos. Falta a bomba atômica do meu rumo. Falta aprender a acreditar. Falta muito. E cada dia mais eu tenho impressão de que serei daquelas que dura pouco.
   

2 de junho de 2009

Madrugar

   Muda-se de humor muito. Muito algo, não sei se depressa, se demais, se. Portanto algo. Ando ocupada. Com muito e com nada. E me mantenho em frases curtas porque me enfio em prolixidade quando resolvo dizer demais. Na verdade hoje nem tenho o que dizer. Poderia descrever minha gripe, mas ela já incomoda uma pessoa só o suficiente. O ministério da saúde deveria advertir que isso não é de se dividir.
   Perdi o sono hoje lá pelas 03:49 em ponto - dizia meu celular. Não tinha e não tenho mais o que assoar, mas que faço? Papel e caneta. Voltei a tentar compor. Meu violão em outro cômodo, incômodo. Credo! Relendo tudo que disse me vi numa crônica de quem madruga e bebe café a meia luz da cidade grande. Não que eu não me encaixe nessa sentença, mas costumo falar do que não costumo dizer. Ou pelo menos sempre tento falar o que não se dá pra dizer e fico por não conseguir.
   Gostei do cenário: caneca branca, cortina entreaberta, escuro, riscos de luz no chão e quadrados dessa lá fora. Uma freada, um susto, uma batida. Tudo pela moldura da janela. Uma moça de roupão ficaria bem aqui. Mas não a quero. E nem quero nada disso, só achei interessante como filmei isso em mim.
   Por falar em filmes, não costumo indicar nada, porém: Romance.